terça-feira, 7 de março de 2017

Um poeta vestido de noiva



Sempre quis ser outro tipo:
Um poeta vestido de noiva.
Não por estranheza minha
Ou por mero fetichismo,
Gosto dessa sensação
De ser aleatório -
A minha existência.

Todo poeta tem sua caracterização
Por mais que seja momentânea.
A minha vem sendo essa:
Usar branco, véu e grinalda.
Sem qualquer remorso
Para recitar o meu verso -
Nas escadarias da igreja
Até chegar ao altar.

Não que eu queira casar
Tampouco, tenho alguém para isso.
É apenas um vislumbre bobo
Para que o público desentenda
Qualquer cerimonial de poesia
Ou pelo menos essas pomposidades
Que recobrem as palavras.

Me faço do direito de ser poeta e noiva
Ao mesmo tempo, na mesma sincronia.
Esquivo-me dos preconceitos velados
Dos apontamentos direcionados a mim.
Quero jogar o buquê o mais longe possível!
Para que ninguém pegue o fio da meada
Dessas ideias que afugentam -
O desejo de fazer a vida
Como uma noite de núpcias.

Um momento ao menos
Em que eu possa fazer do anelar
Outro tipo de eternidade.
Capaz de me satisfazer -
Enquanto noiva do meu próprio Eu
Casada com o poeta que reneguei a ser
Afinal.