quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

JUST-US


Eu quero que encarem meu poema
E digam na cara qualquer desaforo
Que critique minha zona de escrita.
Não me pertence mais essa posição
De poeta e mentor da palavra-alma
Redescoberta na tentativa de ser Eu.
Crítico-reflexivo, sobre a existência
Dum leitor - que contradiz tal leitura
Numa armadilha que sempre escreve.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Os calos quando calam



Meu poema veio até aqui
Com seus pés já inchados,
E de tanta palavra rasteira
Mal cabe em tais calçados,
Feitos à mão e carne-osso
Escondendo entre os dedos
O corroer das unhas e tempo.

Meu poema quando chega
Vem na lentidão desta vida,
Que pausa e lubrifica a pele
Com suor, saliva e lágrima,
Vai cicatrizando cada ferida
Até que não sobre mais de si
Uma memória sem lembranças.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Um ateu que olha para o céu


Sou o tipo de ateu que olha para o céu
E que contempla cada tipo de minúcia
Existente na minha vasta pequenitude.
Meus óculos são incapazes de chegar
Ao ponto mais longe desse imaginário
Que constrói histórias além do que sou.
É nesse minha condição de observador
Que meu ceticismo ganha outro molde:
O de prevalecer sobre as coisas óbvias.
Isso sempre me intrigou de tal forma,
Visto que não se têm muitas respostas
Acima de nossas cabeças problemáticas.
Pensamos demais, até onde era simples
Como redesenhar uma nuvem branca
Ou até mesmo, ao avistar um OVNI.
Parece loucura, mas acredito no céu
Nas possibilidades que podem surgir
Numa noite insone, numa manhã vaga
Onde olho para o alto e entendo pouco:
Afinal, o que creem os que não creem?

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Palavrar


As palavras comeram meus dedos
E deixaram minhas mãos ásperas
Para fazer aquele: poema enxuto
No fluir da contramão dos passos
Que vai > atropelando cada verso
Até chegar num caminho estreito
Onde ninguém perpassa sua alma.

As palavras falaram pelo meu silêncio
E reforçaram minha fraqueza poética
Que se delimita a um corpo atrofiado
Em terno e gravata, feito sob medida
Para o próximo funeral de minha fala
Que recita as últimas linhas tortuosas
Desta vida principiada, no dito e cujo
...

terça-feira, 20 de junho de 2017

Aborrecência


Eu:
Pele ossuda -
Cravos e espinhas -
Digo pela minha poesia -
Que a adolescência é nossa idade das trevas.

Quem nunca teve:
Seu cabelo tão esquisito -
Suas roupas um tanto estranhas -
Não sabe a transição que se faz versos.

De escrever nas paredes:
Que ama, que odeia!
Que quer fugir de casa! Mas que está ali também!
Present(r)e, passado(r), fu(r)turo...

Logo:
Não sobram faltas -
Não faltam sobras -
De um corpo-disciplina -
Pelo doce veneno da puberdade.

terça-feira, 7 de março de 2017

Um poeta vestido de noiva



Sempre quis ser outro tipo:
Um poeta vestido de noiva.
Não por estranheza minha
Ou por mero fetichismo,
Gosto dessa sensação
De ser aleatório -
A minha existência.

Todo poeta tem sua caracterização
Por mais que seja momentânea.
A minha vem sendo essa:
Usar branco, véu e grinalda.
Sem qualquer remorso
Para recitar o meu verso -
Nas escadarias da igreja
Até chegar ao altar.

Não que eu queira casar
Tampouco, tenho alguém para isso.
É apenas um vislumbre bobo
Para que o público desentenda
Qualquer cerimonial de poesia
Ou pelo menos essas pomposidades
Que recobrem as palavras.

Me faço do direito de ser poeta e noiva
Ao mesmo tempo, na mesma sincronia.
Esquivo-me dos preconceitos velados
Dos apontamentos direcionados a mim.
Quero jogar o buquê o mais longe possível!
Para que ninguém pegue o fio da meada
Dessas ideias que afugentam -
O desejo de fazer a vida
Como uma noite de núpcias.

Um momento ao menos
Em que eu possa fazer do anelar
Outro tipo de eternidade.
Capaz de me satisfazer -
Enquanto noiva do meu próprio Eu
Casada com o poeta que reneguei a ser
Afinal.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Off ício


Já fui de tudo
Menos poeta,
Não por falta
Nem mesmo
Por desprezo,
Pois ser algo
Exige escrita,
De um verso
Capaz de ter:
A vida morta
O peso macio
Da carne crua
De alguém só.