domingo, 30 de outubro de 2011

Sem remetente, sem destinatário



O hábito de receber cartas havia se perdido nessas redondezas
Tempos esses de seca aos aspirantes e inspirantes a sonhadores
Que tinham suas caixas postais vazias, mas cheias de esperança.
Tão mero seja aquele que tem o martírio do peso das palavras:
Eis então o carteiro - que tinha em si todas as poesias de gaveta.


Mas ele tinha uma garota aparentemente nula aos olhos alheios 
Que tinha como selo postal uma marca de batom rubi na boca
Um envelope perfumado em volta do corpo com outro aroma.
Até parece que logo ela encomendaria um amor tão extraviado
Duma incorrespondência que o carteiro entrega-se ao escrever.


Aquele pedido descompromissado teria então outro destinatário
De um admirador secreto que preferia ser anonimato do silêncio
Que talvez saísse daquela embalagem feita de timidez tão escrita.
Desempacotasse todos aqueles sentimentos num único endereço:
O coração dela, sem qualquer remetente ou mesmo destinatário.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O clima do clímax


Toda segunda-feira deveria ter sabor de feriado
Com cheiro de grama molhada recém-aparada
Para lambuzar os pés desnudos no lamaçal do quintal.

Procurar uma sombra fresca sem frescuras
De um ombro afago como de um velho amigo de infância
E aceite brincar de esconde-esconde no escuro.

Que repare as tonalidades de azul espalhadas pelo céu
O quanto nossos olhos são capazes de absorver
E a tamanha cegueira que nos fere lentamente.

Ter uma bicicleta que pedalasse ao contrário...
Ao in-verso: retroceder um pouco tão distante de mim
E sentir novamente aquele gostinho de joelho ralado.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Ócio Criativo



Queria ter inventado você nem que fosse por apenas um breve momento
Tal hiato criativo impede-me de criar musas de inspirações expiradas assim
Pois nada é tão formidável como ter uma vida supostamente imaginária,
Pena que tudo isso não passa de fermentação cerebral
Falta-me aquele ócio produtivo e aquelas ambiguidades que pertenceram a ti.


Queria ter sensualizado essas silhuetas para deslizar-me em tais curvas
Milimetricamente a todos seus ângulos retos e oblíquos que te compõem,
Bendito seja esse fruto proibido que pertence ao teu ventre
Que alimentara este pecado corrosivo para uma carne tão frágil como a minha.


Queria ter sonhado contigo novamente nem que fosse pela última vez
Reprisar todas aquelas peculiaridades e tudo aquilo que havia em nossa volta
Guardar todos esses pensamentos privados em poemas de gaveta
E finalmente ficar um pouco fora si para estar um pouco dentro de ti.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Infanticídio



Crianças no quintal cantarolam suas cantigas de roda para pessoas quadradas
Sem nenhum pudor de furtar aquelas tulipas do quintal do vizinho rabugento
Pois tocar a campainha do mesmo já não surtia mais o mesmo efeito.
A casinha de tábua no cume da árvore permitia uma visão panorâmica de tudo
Nada escapava do bode expiatório daquelas ovelhinhas negras da família
Desde as nuvens maciças que modelavam-se em infinitos seres e formas
Até as estrelas cadentes confundidas com Ovni's.
Mesmo silabando, escreviam (agramaticalmente) certo por linhas tortas
O Bê-A-Bá não acompanhava mais toda aquela melodia do Tim-Do-Lê-Lê
Pois o único amigo-imaginário das criancinhas era Deus.