sexta-feira, 30 de maio de 2014

CrerSer


Sou então concursado pela vida
E funcionário efetivo do mundo
Num cargo comissionado ao eu
Que limita-se em departamentos 
Ou qualquer outra administração.
Caso tenha um edital sobre mim
Espero que não seja protocolado
Nem mesmo quando retificar-me
Na espera de ser eterno suplente
Em algum formulário de existir.
Se vivo só depois do expediente
É porque a morte foi exonerada
Quando gabaritou todos os erros
De quem já foi então terceirizado
Por outro patrão ainda de licença.
Poderia até aposentar-se de tudo
Ao invés de ser você num dossiê
Onde os dias não cabem em ata,
Até que os versos do livro-ponto
Fossem inscritos no diário oficial
Deste servidor público, e sozinho.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Projétil de gente


Se carrego uma granada junto a mim
Alojada no que seria então o coração
É porque o amor tende a explodir-me
Nesse afundo em forma de trincheira
Onde teu silêncio se faz numa guerra.
É como se até ti tudo fosse catástrofe
Um campo minado ao redor do corpo
Que faz de nós um namoro de faíscas
Preste a incendiar qualquer estrondo.
Mas caso queira bombear tal estouro
Dei-me ao menos um abraço suicida!
Daqueles que fazem destroços ósseos
E até palpitam um sangue inflamável.
Neste caso, nosso sentimento atômico
Nada mais é do que algo apocalíptico
Nem mesmo cabe em outro epicentro
Ou quem sabe no nuclear de alguém
Sendo você Hiroshima e eu Nagasaki.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

(Inter)valos de mim mesmo


Escrevo como se fosse meu último poema
Assim mesmo: sem qualquer outra datação
Não cabe a mim temporalizar toda a escrita,
Penso que escrever é ainda feito eternizante
Ora pelo fracasso dessas abdicações sociais
Ora pela instantaneidade que se faz vigente.
A única justificativa seria uma escrita vívida
Isto é, algum escrito para que se possa existir
O que não é nada simples como leem por aí
Pois é num poema que somos alguém de fato,
Por mais humanizador que seja o tal escritor
O mesmo sempre morre na própria transição
Digo, falece em si entre um poema ou outro.

Enfim hífen, separados


É nós-só 
Ex-cravo
Sem-ente
Par-tido
Com-ida
Ou-vida
Diz-persa
No-viço 
Dá-quilo.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Feliz Dia Internacional de Você!


(Sinceramente, hoje não foi o meu dia...)
Penso aqui comigo: esse dia vai chegar?
Ou até pior: existe um dia só e dito meu?
Parece bem óbvio ter esse egoísmo em si
De querer os dias para fins então pessoais
O que sempre parece-me algo tão subjetivo.

Mas posso lhe contar um grande segredo?
Que existe sim! - um dia dado como nosso.
Mesmo sob este individualismo até diário...
Enfim, fizemos jus por tal dia e declaramos:
"Um dia por vez até chegar o fim dos dias!"

É isso mesmo! O grande dia é sempre o fim!
O fim de tudo, o fim de quem foi quase nada!
Eis aqui o meu, o seu, o nosso dia almejado!
Eba! A morte veio antes e já trouxe consigo
O último dia para terminarmos aqui e assim:
Mortos! Onde todo existir ao ser então acaba.

Pois bem, ficam as felicitações e os pêsames
Pelo seu dia - que é dia como qualquer outro
Apesar de ser um dia comemorado no alheio
Na homenagem que logo será só esquecida
No que há de mais eterno em nós mesmos...


P.S: Qualquer dia desses eu morro também...

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Oxente bichim se oriente no verso!


Mais que poeminha biesta sô
Parece até um currá de verso!
Que empanzina as alma toda
E alumia o breu dentro di nóis.
Não é qui o cabra senti mermo!
Faz as rima à foice de lapiseira
E ainda proseia sobre o mundo
Ao suntar as labuta dos outro.
Mas diga lá cumpadi poeteiro:
Qual palavriado mais chicoso
Que há de existir num papér?
Inté gosto de oiá essas letrinha
Mais grande que quarqué amor
Escrita por vossa senhoria, visse?
Eita que a vida poderia ser mió
Como nos causo de boca e orêia
Que de tão baum iocê os escreve
Para um tár de leitor abestaiado
Que lê tanta lorota e vira tadim.

domingo, 18 de maio de 2014

Prefácil


Dizem que eu enlouqueci
Porém, meu conflito de si
Não permite ousar lá fora
Quando vou-me embora.
Fugir é também caminho
Faz do mundo seu vizinho
Para quem já ama sozinho
Um estranho doutro ninho.

Para um ser mais líquido


Então soterraram o céu
E com nuvens de pedra
A chuva empoeirou-se
Numa lágrima tão dura
Que até o solo bêbado
Ao liquidar tanta terra
Vomitou outro dilúvio

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Des-conto


Nós então parcelados
Em duas prestações
Que debitam o sentir
Este, nunca quitado.
É numa dívida nossa
Que o beijo a prazo
Cobra juros de amor
Mesmo sem fia/dor.
Negociamos a dois
O valor deste a/preço
Quase inadimplente
De quem avaliza a si
Para então vender-se
Na clientela do outro.
Pois o verso (a)paga
Qualquer eu à vista
Estocado tão adentro
Neste cofre do peito
Que lucra ao ter você.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Atraso Tempoético


Hoje, o poema vai ser rápido
Pois o amor não pode esperar!
Não é que eu alongue o verso
Ou insiste em escrever para ti
Mas tenho escritos por fazer
Que precisam partir de mim
Até serem eternamente breves.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Ménage a sós


Nesta humanização sádica
Viver é quase masoquismo
Quando o amor vira fetiche
E amordaça algum silêncio
Que vem a ser dominado aí:
Na masmorra deste mundo
De quem se sub/mete a ter
Aquilo que já foi hematoma.

domingo, 11 de maio de 2014

Publicisolitário


Aqui está meu ultimato:
Ou você me ama agora
Ou serei mais drástico -
Em fazer poesias então!
Lá no fundo, você as lê
Mas finge em não se ver
Em algo também tão seu.
Deixe esse egoísmo de si
E faça deste poema aqui -
O último de nossas brigas!
Pois escritos nunca acabam
Apenas mudam-se os donos
E neste caso, até de leitor -
Que nem sempre será você.

sábado, 10 de maio de 2014

Poeta menor


Meu coração é pouco
Não se cabe em mim
Algum mundo afora
Ou outro sentimento
Que qualquer outro
Possa mentir para si.

Meu ser é pequeno
E existe aos poucos
Como se fosse tudo
Predestinado a viver
Em algo que morre
A todo instante seu.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Saussure for agora!


Não se traduz uma língua
Se o paladar já fala por si
Num sabor de vocabulário
Ou em verbete desbocado.
O amor torna-se poliglota
Quando é beijo de língua
E chuvisca o céu da boca
Com a saliva mais silábica
Até tocar o cerne da úvula.
Nesta linguística tão nossa
De pronunciar tais sentires
Faz de nós então bilíngues
Que entre leituras bilabiais
Selam um idioma namorado.

Amortados


Então que se faça amor
Mas não se faça poesia.
Os poetas quase amam
Um amor desconhecido.
Escrevem-se ou leem-se
Para quem tanto se ama
Ou esquecem tal amor
Para o poema só existir:
Sem amor onde já viveu.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Love Metal


Amar é algo mecânico
Ao lubrificar tanta veia
Em tais ossos metálicos
Até a bobina do peito.
É desconfigurando-se
Qualquer robotização
Em lágrima de diesel
Ou num riso parafusado
Que logo enferrujamos
Outra vivência alcalina.
Eis a nossa androginia
De ser mais maquinado
À fazer tudo sistêmico
Funcional e inoperante
Antes que (IN)for/mate
A memória de existir-se.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Eucentrismo


O poeta é mesmo um egoísta
Escrevendo sozinho toda vida
Como se a dor fosse palavra,
Não lhe cabe um verso sequer!
O máximo da poesia é existir!
Nada mais, e o que posso ser?

Achar-se em qualquer escrito
Nunca foi grande feito pessoal
Na verdade, somos mentidos
Da inspiração até a tal criação.
Tudo aqui é falseado para isso
Poetizar-se evita toda a verdade
Que acoberta nossos pecados
Aqui, acompanhados de rimas
Ou qualquer métrica tetraplégica.

Sempre recitam um belo inferno
Que é profundo de nós humanos
Escritores de qualquer loucura
E com seus respectivos leitores
Que leem! Neste caso, a si mesmos.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Sòu


Cada um
Adentra
No vazio
Do outro
A fim de
De viver
A mesma
Solidão.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Poetariado


O poeta
É atleta
Versátil
Portátil
Até tátil
Da rima
Que imã
Em cima
De Deus
Nos seus
Apogeus.

domingo, 4 de maio de 2014

Dia/logo


E hoje continua sendo o pior dia de todos
Pois não há nada de extraordinário nos dias
Mas o que tanto se espera num dia a mais?
Não sendo o bastante, a inutilidade dos dias
Estamos nós a contar essa eternidade diária
Que insiste em acordar outro suicídio diurno.

Epilep(oe)sia


Se essa dor não cabe em si
Faça dela então um poema!

Que atire o primeiro verso
Quem nunca rimou a vida!

E por ventura parafraseou
Sua unanimidade plagiada!

Amou o próximo como só
Uns aos outros até morrer!

Put#refa


Ela fechou todos seus poros
Internalizou tantos orgasmos
E hoje é frígida carnalmente
Como um cadáver romântico.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Salm0


Eu acredito é no cético
De um deus sem mérito
Que evoluiu no pretérito
Sem juízo final tão ético.
Existo-me ao ser pecado
Onipresente e anonimato
No demônio mais beato
Num versículo tão exato.

Poesia do Oprimido


O verso mais analfabeto
Também lido internamente
Nunca será escolarizado
Nem recitando gagueira
Pois, ler e ser coexistem
D'dentro pra mais fundo.

Está cio


A baliza de sentar ao teu lado
Vai manobrando tais palavras
Estacionando minha presença
Na vaga livre do seu coração.