quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Poetar



A vida na longitude de uma frase
Sob a cabeça chapelada em crase
Vem o acento mas falta o assunto
Deste eu sujeito aqui sem adjunto,
O mundo feito sob as reticências
Poesia cética entre tantas ciências
Por toda esta hipérbole que sente
Na vírgula presa em cada dente,
Existo no verbo e minto no verso
Corpo de estrofe ainda submerso
Na rima tímida, no clímax morto
Da palavra que nasce em aborto.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Ao lado, de dentro



Hoje faço o que o amanhã esquece
Ressuscito mais a cada dia dito seu
Sepulto o verso em você nesta prece
De atritar longe esse eu junto ao teu,
Venho sem tanto no entanto para ti
Desterro o peito para fincar o apreço
As palavras palpitam num compasso
Onde o tal coração vira um endereço
E abriga o entrelaço aqui tão escasso.

Uma lágrima que desliza sob o rosto
Os olhos encharcados nesta árida pele
Chove-se no olhar rente algo suposto
Voz trovejada que tempesteia este rele,
O poema em grito, da boca pra dentro
Mantive somente este espaço ao lado
E lá vem quem chega neste epicentro
Aprochegando essa tua falta em fado.

Em cada traço desmistifico sua presença
O quanto existe de você em mim por dó
Bendita seja no conceber desta licença
De ofegar o mesmo ar que já foi tão só,
Mero eu doído nesta brecha ainda vazia
Perante o elo a ela, um nó entre nós dois
Fica então esta remetência pela primazia
Entre as concordâncias que virão depois.

sábado, 19 de outubro de 2013

À parte



Ao amigo em dérbi consigo
Toda pauta tem sua pausa
Nas fronteiras do inimigo,
Que faz fax de letra falsa
Da rubrica em teu sangue
Numa fissura de cicatriz
Não tenho a tua amante
Meio pedante, essa atriz.

De monólogo tão fácil...
Um prazer débil em nós
Sentir antes do prefácio
Uma história dada a sós,
Miolo desta carne crua
Assim assado, fez caso
Por acaso, foge da rua
Na esquina que atraso.

Como mentir o remorso
Se a verdade me expõe?
Coube a dor do destroço
A náusea que tanto põe,
Perde-se ali mais um elo
Sem nó ou laço de fita
Entre ambos, em duelo
Por aquela, tal senhorita.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Viva la Poetización!



A prece tem a pressa do preço preciso
Mais-valia ter a graça do que de graça
Na esmola que faz escola do prejuízo,
Tende a atender o trombone da massa
Vem em farsa, por toda esta desgraça
Que disfarça as mentiras de tal sorriso.

Juram o pão de ontem nessas migalhas
Flor sob o espinho, o porquê do buquê
O teu perfume que me perfura as falhas,
Enjaulam os filhos na caixinha da tevê
No plim plim do choro jus aos canalhas
Vida e obra na propaganda em degradê.

Mãos pedintes de trocados e até fiado
Só mais uma rua rasa ao ver o edifício
A altura em apogeu de dentro do lado,
O emprego bate no prego e seu ofício
Martelar a mente o mentir ao quadrado
Lá no fim afim de mim pelo teu início.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Leia eu a tua bula!



Prescreveram um laudo deste lado
De banda, contorcido no sábado
Este de aleluia, aluado a tal Sol
É só mais uma maca sem lençol,
O sepulto de alguém ali por fora
Um dito tchau tardio que demora.

Toda autópsia vem do rosto pálido
Do falar e do falecer ainda válido,
Perícia de dentro, óbito de tudo...
Só sendo cobaia de todo conteúdo
Que adoece todo a cura em males
Para que teu enfermo então fales.

Na saúde ou na saudação, partiu...
Dessa para a dúvida quase febril
Fica aqui as cicatrizes das chagas
Na unção para as outras pragas,
De quem pede socorro no relento
E morre em vida sem ficar isento.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Poesia às avessas



Sepulto nos garranchos mais uma parábola viril
Independente da ditadura silábica no seio febril
Sou eu enfermo do veneno que embriaga tantos
Vira viral e varal das vestes de todos os santos.

Nosso dogma fervilha a veia da velha prosa
Destas mãos encravadas, brota-se uma rosa
O furúnculo da vida, o cerne dos escondidos
Sem eira nem beira do sussurro aos ouvidos
Furta os léxicos como escriba dos bandidos.

Poesia rasante no lapso da elipse sob a cabeça
Pertencer alheio nos outros para que aconteça,
Estranho eu (re)citar o perder destas façanhas
Para satisfazer todas entrelinhas e entranhas
No abalo sísmico destes amores magmáticos
Um nuance do romance, sejamos dramáticos!

Escrever é algo além de doar palavras ao sentir
É preciso mentir na busca verdadeira de ir e vir
Mesmo em passos mancos, aleijar-se a tal ponto
Em que todas as deformidades virem encanto
Pois assim se fez o ser, existindo por enquanto...

domingo, 13 de outubro de 2013

Mameluco



O verso como corda dos enforcados
Fez linha do elo e nosso alô ao lado
No tricotar converseiro dos pardos,
Essa pele madeira sob a escrivaninha
Traz a dentadura enferrujada minha
A palavra ruminante que a boca tinha.

A rima batida na palmatória do pesar
Mão esmurrada na prosa de cada bar
Engasgo o sotaque, é aqui sem lugar
Deste rosto polido em toda linchação
O palavreado em pauta vai na oração
De quem mente poesia para os sãos.

Vem o fim que revigora em outrora
Escreve-se a pausa da vida que mora
Ao lar de cada um, que brinca lá fora
No mesclado dos nossos caules viris
Aos corpos mognos que vão num triz
Morenice dos papéis em força motriz.

sábado, 12 de outubro de 2013

Poemeio



O chão que eu respiro
É o ar no ir do espirro,
A boca cheia de beijos
Dos lábios deste almejo.

Calam-se ai os teus olhos
No fato da foto, eu colho
E encolho em toda altura
Na mentira que tanto jura.

Os dedos murcham agora
É um dia que fica lá fora
Nesta prévia que me arde
Num amanhã que vai tarde.

Quem de vez em pouco
Fez de um silêncio rouco
O que sempre quis em reza
Aos anjos que assim preza.

Não adianta ir em tal atraso
Quando a dívida vira prazo
Tudo vale quando se é nada
Isso tanto ao tonto que fala.

Quantos versos tentei soluçar
Na solução dada a cada par,
Fiz grito de mim para outros
Dei a voz alheia aos monstros
E foi então que me vi noutros.

Carne deste teu espelho feio
Que veste e investe no meio,
Aconselha estas sobrancelhas
A chorarem menos por mais
Para tanta tentação que te traz.